Por Redação
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Mesmo quem nunca surfou as famosas esquerdas de Regência provavelmente conhece alguém que já esteve por lá e voltou falando que pegou altos tubos na viagem. Não é história de pescador. É nesta pequena vila do litoral norte capixaba, no município de Linhares, que o Rio Doce encontra o mar e ajuda a desenhar uma das ondas mais tubulares do Brasil.
São ondas rápidas, que se desenrolam sobre uma extensa bancada de areia e transformaram Regência em uma espécie de escola de tubos a céu aberto. Durante décadas, essas esquerdas povoaram o imaginário de surfistas de todo o país. Em 2015, a tragédia de Mariana abalou profundamente a comunidade local e alterou a dinâmica da foz do Rio Doce. Mas, em 2022, as ondas finalmente voltaram a quebrar e foram recebidas como um símbolo de renovação para a vila.
Mesmo com tanto swell, resumir a chamada "Vila Mágica" às ondas seria deixar de lado boa parte do que torna esse pedaço do litoral capixaba tão especial. Em Regência, o surf está ligado ao Rio Doce, à pesca artesanal, às tartarugas marinhas e a uma comunidade extremamente resiliente. Viajar até lá é encontrar ondas, claro, mas também conhecer um território que vem reconstruindo sua relação com o rio e com o mar.
Uma onda desenhada pelo Rio Doce
Localizada a cerca de 51 quilômetros do centro de Linhares, Regência ocupa a margem sul da foz do Rio Doce, um dos cursos d'água mais importantes da costa brasileira. É justamente o encontro entre o rio e o Atlântico que explica a qualidade, e também a imprevisibilidade, das ondas.
A vazão do Rio Doce transporta e redistribui grandes volumes de areia, formando extensas bancadas ao longo da costa. Quando essas bancadas estão bem alinhadas e recebem uma combinação favorável de swell, vento e maré, surgem longas paredes e tubos infinitos. É uma onda viva, moldada por processos que começam muito antes de a água chegar ao oceano.

Reconhecida como Reserva Nacional de Surf em 2025, Regência reúne diferentes picos e oportunidades para todos os níveis. Os mais conhecidos são a Boca do Rio e os points distribuídos ao longo da praia, incluindo Tonéis, Point 1, Point 2 e o trecho próximo ao Projeto Tamar.
A Boca do Rio é a onda mais emblemática. Em sua configuração clássica, recebe ondulações grandes de sul, com período elevado, vento de norte ou nordeste e maré baixa começando a encher. Quando o fundo colabora, forma esquerdas extensas e tubulares, a onda que alguns locais apelidaram de "prima de Bali".

Nos points, a combinação costuma ser diferente. Ondulações de leste associadas a uma entrada de sul ajudam a organizar as bancadas, enquanto o vento de norte ou noroeste mantém as paredes lisas. Como todo beach break influenciado por uma foz, porém, as regras não são absolutas. O pico que funcionou perfeito durante uma temporada pode esfarelar na seguinte.
A prática do surf é frequente durante o ano todo, embora a primavera costume concentrar boas oportunidades. Antes de colocar a prancha no carro, vale acompanhar swell, período, vento e maré de Regência. E, principalmente, conversar com os surfistas locais. Nos dias clássicos, Regência é uma onda potente, com correnteza forte e tubos que exigem experiência.

O dia em que a lama chegou ao mar
Não é possível contar a história recente de Regência sem voltar a 5 de novembro de 2015. Naquele dia, o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco (controlada por Vale e BHP), em Mariana, Minas Gerais, liberou aproximadamente 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração de forma imediata. Outros milhões continuaram escoando posteriormente.
O crime ambiental matou 19 pessoas, destruiu comunidades e atingiu cerca de 680 quilômetros de corpos hídricos. Depois de atravessar a bacia do Rio Doce, a lama alcançou o oceano em Regência no dia 21 de novembro, 16 dias após o rompimento.

Na foz, a água barrenta se espalhou pelo mar e aprofundou uma crise que não era apenas ambiental. A pesca, uma das principais atividades econômicas e culturais da região, foi proibida em parte da zona costeira. O turismo diminuiu, a insegurança sobre a qualidade da água afastou visitantes, e o surf, parte vital da identidade local, também perdeu espaço.
A chegada dos sedimentos alterou a dinâmica da foz e as bancadas que sustentavam suas ondas mais famosas. Segundo o Programa Brasileiro de Reservas de Surf, a Direitinha e a Boca do Rio ficaram praticamente seis anos sem quebrar e voltaram a funcionar somente em 2022. O desaparecimento da onda ganhou um peso simbólico enorme. Regência não havia perdido somente um pico de surf. Perdeu, ainda que temporariamente, uma parte de sua paisagem, de sua economia e da maneira como a comunidade se reconhecia.
A recuperação continua longe de ser uma história encerrada. Em outubro de 2024, um novo acordo de reparação do Rio Doce estabeleceu R$ 170 bilhões entre recursos públicos, obrigações mantidas pelas empresas e valores que elas afirmam já ter desembolsado. O novo modelo surgiu após o reconhecimento de que a estrutura anterior não havia garantido reparação adequada nem recuperado a bacia no ritmo esperado.

Quando uma onda ganha direitos
Em meio ao longo processo de reparação, a comunidade de Regência encontrou no próprio surf uma ferramenta de mobilização. Em 2018, lideranças locais participaram do primeiro Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza, em São Paulo. O encontro ajudou a plantar a ideia de criar uma proteção jurídica específica para as ondas da foz.
O movimento ganhou força e, em agosto de 2024, entrou em vigor a Lei Municipal nº 4.225, que reconheceu os direitos intrínsecos das ondas da Foz do Rio Doce e de todo o sistema ecológico interconectado a elas. A mobilização local apresenta Regência como a primeira onda do mundo reconhecida nessa categoria como sujeito de direitos.
Na prática, a lei estabelece que as ondas têm direito de existir, de manter livres os corpos d'água dos quais dependem e de conservar os espaços culturais, ambientais e turísticos ligados ao seu ecossistema. Também reconhece a relação das ondas com o surf, a pesca artesanal, a agroecologia, o lazer e as práticas espirituais da comunidade.
A legislação criou ainda um Comitê de Direitos das Ondas, formado por representantes da comunidade, de associações de surf, do poder público e da Federação de Surf do Espírito Santo. Entre suas atribuições está a publicação de um relatório anual sobre a saúde e o estado das ondas.
Os Direitos da Natureza fazem parte de um movimento jurídico internacional que questiona a ideia de que rios, florestas e oceanos existem apenas como recursos à disposição dos seres humanos. Em vez disso, reconhece ecossistemas como entidades portadoras de direitos próprios.
Em Regência, o conceito ganhou uma aplicação especialmente concreta: proteger a onda significa cuidar da qualidade da água, da dinâmica dos sedimentos, do rio, da praia e das pessoas que dependem desse sistema.
Uma Reserva Nacional de Surf
Em julho de 2025, Regência deu outro passo importante ao ser oficialmente titulada como Reserva Nacional de Surf. A área delimitada possui 7.770 hectares e integra a rede brasileira ao lado de lugares como Guarda do Embaú, em Santa Catarina, Itamambuca, em São Paulo, e Praia do Francês, em Alagoas.
O título não transforma a região em uma unidade de conservação nos moldes tradicionais nem impede o acesso às ondas. A proposta é reconhecer e proteger um ecossistema de surf: o conjunto formado pelas ondas, pela biodiversidade, pela paisagem, pela cultura e pelas atividades econômicas associadas ao esporte.

O plano de gestão de Regência estabeleceu como prioridades a educação ambiental, o monitoramento do Rio Doce e a valorização das manifestações tradicionais. A conquista também reconhece a importância do surf para a recuperação econômica da vila, já que pousadas, restaurantes, comércios e prestadores de serviço dependem da chegada dos surfistas nos dias de boas ondas.
Muito além dos tubos
O principal programa fora d'água é conhecer o trabalho de conservação das tartarugas marinhas. A base do Projeto Tamar em Regência foi instalada em 1982 e está entre as pioneiras do país. A região da foz do Rio Doce é considerada o segundo maior sítio reprodutivo da tartaruga-cabeçuda e a principal área brasileira com desovas regulares da tartaruga-de-couro, espécie criticamente ameaçada de extinção.
Em agosto de 2025, o Tamar inaugurou o Espaço Praia, no principal acesso ao mar. Além de apoiar as equipes de pesquisa e educação ambiental, o local possui painéis sobre a conservação das tartarugas e aproxima visitantes do trabalho realizado na região. As iniciativas ligadas à fundação também ajudam a gerar renda para moradores por meio da confecção e de grupos de artesanato.
Regência também mantém viva uma forte tradição cultural. O personagem mais conhecido da vila é Caboclo Bernardo, pescador que, em 1887, enfrentou um mar revolto para ajudar no resgate dos tripulantes do navio Imperial Marinheiro. Dos 142 homens a bordo, 128 sobreviveram. Bernardo foi condecorado pela Princesa Isabel e sua história é celebrada anualmente na festa que leva seu nome, marcada por cortejos, artesanato e pelo encontro de bandas de congo.

Entre uma sessão e outra, vale caminhar sem pressa pela vila, conhecer o artesanato, experimentar a culinária local e observar o cotidiano de um lugar que ainda mantém ritmo próprio. Regência possui estrutura simples, com pequenas pousadas, casas de temporada, campings, bares e restaurantes. Reservar antes da viagem é recomendável, especialmente durante campeonatos, feriados e finais de semana com previsão de swell.
Os 34 quilômetros de terra que estão virando asfalto
O acesso mais direto a partir de Linhares começa pela BR-101, seguindo pelo distrito de Bebedouro e depois pela ES-440. O percurso entre o centro de Linhares e a vila tem aproximadamente 51 quilômetros.
Historicamente, cerca de 34 quilômetros desse caminho eram percorridos por estrada de terra, um trecho cansativo e sujeito a buracos, poeira, lama e alagamentos. Em março de 2026, o Governo do Espírito Santo iniciou as obras de implantação e pavimentação da ES-440 entre Bebedouro e Regência, financiadas com recursos do Acordo de Mariana. A previsão anunciada é de aproximadamente dois anos de trabalho.

Enquanto as obras estiverem em andamento, é importante consultar as condições da estrada antes de sair. Um veículo 4x4 não é indispensável durante todo o ano, mas carros mais altos levam vantagem, principalmente depois de períodos de chuva. Também é recomendável abastecer em Linhares ou Bebedouro e evitar chegar à vila sem reserva de hospedagem.
Também vale lembrar que a praia integra uma área ambientalmente sensível. Respeite os locais, não circule com veículos sobre a areia, mantenha distância das áreas de desova, leve seu lixo de volta e prestigie pousadas, restaurantes, guias, artesãos e outros negócios da comunidade.
Regência continua sendo uma viagem em busca de tubos. Mas agora há algo maior em jogo. Cada onda que volta a quebrar carrega a história de um rio, de uma tragédia que não pode ser esquecida e de uma comunidade que decidiu transformar o surf em ferramenta de proteção. Talvez essa seja a verdadeira magia da Vila.
Fotos: acervo próprio, exceto onde a legenda indica outro autor

