Por Redação
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Em Florianópolis, basta se afastar um pouco da praia para descobrir uma ilha bem diferente daquela dos cartões-postais. Atrás da orla, morros cobertos de Mata Atlântica, restingas, dunas, lagoas e costões formam uma extensa rede de caminhos que convida a explorar Floripa em outro ritmo — de preferência, com um bom par de tênis nos pés.
E muitos desses caminhos estão longe de ser novidade. Bem antes de as trilhas aparecerem nos aplicativos de aventura e virarem destino de mochileiros, elas já eram usadas por pescadores, agricultores e moradores para circular entre freguesias, roças, engenhos, fontes de água e praias isoladas. Até o antigo nome guarani da Ilha de Santa Catarina, Meiembipe, significa “montanha ao longo do canal”. Em Floripa, relevo e cotidiano sempre caminharam juntos.
Talvez seja justamente isso que torne o trekking em Florianópolis tão interessante. Em um dia, dá para seguir por um antigo caminho calçado, almoçar em uma comunidade à beira-mar e voltar de barco. No outro, desafiar uma pirambeira, mergulhar mata adentro ou avançar por um costão com o Atlântico quebrando poucos metros abaixo. Há opções para quase todo tipo de perna e disposição.
Essa variedade também vem acompanhada de uma enorme riqueza natural. Florianópolis possui 11 unidades de conservação municipais, que ocupam aproximadamente um terço da área terrestre da cidade. Somadas às áreas protegidas pelos governos estadual e federal, elas representam 41,6% do território terrestre da capital. Mas estar dentro de uma área protegida não significa encontrar trilhas perfeitamente sinalizadas, escadas e caminho aberto. Alguns percursos são fáceis de seguir; outros continuam rústicos, com mato fechado, bifurcações, terreno irregular e pouca infraestrutura.
Para ajudar você a escolher onde colocar as botas, reunimos 14 trilhas para diferentes níveis de experiência — de caminhadas curtas e bem sinalizadas a travessias mais selvagens, que exigem navegação, preparo e atenção redobrada.
E vale o lembrete: em uma ilha moldada pelo vento, pela chuva e pela maresia, o cenário pode mudar rápido. Antes de colocar a mochila nas costas, confira as condições do tempo, o acesso e o estado atual da trilha. Depois, é só escolher o caminho.
14 trilhas para você descobrir em Florianópolis
CENTRO-LESTE • CAMINHO HISTÓRICO • BOM PARA COMEÇAR
1 | Caminho da Costa da Lagoa: história, mata e volta de barco
É o roteiro que melhor resume a Florianópolis anterior às estradas. Partindo do Canto dos Araçás, o caminho acompanha a margem oeste da Lagoa da Conceição entre mata, pequenas praias, trapiches, riachos, ruínas e construções ligadas aos antigos engenhos. A paisagem não é vazia: ela é habitada. Por isso, caminhar aqui também pede respeito às casas, aos quintais e ao ritmo dos moradores.

O trecho até a Vila da Igreja — onde se concentram restaurantes e fica o ponto 16 do transporte lacustre — tem cerca de 5,8 quilômetros; dependendo do trapiche escolhido, a caminhada chega perto de 7 quilômetros. O traçado histórico completo, considerado em projetos municipais de requalificação, se aproxima de 9 quilômetros. A combinação clássica é ir a pé, almoçar na comunidade e regressar de barco, mas horários e operação devem ser confirmados antes da saída.
Apesar do relevo sem grandes montanhas, o sobe-e-desce acumulado, as pedras molhadas e a extensão cobram energia. É uma trilha amigável para iniciantes ativos, não um calçadão. Depois de chuva, raízes e lajes ficam escorregadias.
Acesso: Canto dos Araçás, pela Rua João Henrique Gonçalves, altura do nº 1763.
Distância e tempo: 5,8 a 7 quilômetros até o núcleo principal. Reserve de duas a três horas somente para a ida.
Dificuldade: fácil a moderada, principalmente pela extensão e pelo piso irregular.
Atenção: confirme os horários dos barcos, leve água e não conte com todos os serviços fora da alta temporada.
SUL DA ILHA • CLÁSSICO • PRAIA ISOLADA
2 | Lagoinha do Leste: dois acessos, duas aventuras
A Lagoinha do Leste continua sendo a imagem-síntese do trekking em Florianópolis: praia sem rua, lagoa atrás da restinga e uma moldura de morros verdes. O parque municipal é a unidade de conservação mais visitada da cidade, e o acesso terrestre foi qualificado pelo Programa Roteiros do Ambiente. Ainda assim, a escolha da entrada muda completamente o dia.

Por Pântano do Sul, são cerca de 2,4 quilômetros e pouco mais de 200 metros de subida acumulada. É o caminho mais curto, bem marcado e íngreme; a conta realista é de 1h30 a duas horas por trecho, com paradas. Via Matadeiro, o percurso costeiro tem aproximadamente 5 quilômetros e leva de 2h30 a três horas só de ida. É mais longo, exposto e remoto, com lajes, pedras soltas e trechos em que uma queda teria consequências sérias.
Uma boa travessia entra por Matadeiro e sai por Pântano do Sul, mas exige logística entre os dois bairros. O barco sazonal não deve ser tratado como plano garantido. Leve tudo para passar o dia e inicie cedo. A subida ao Morro da Coroa acrescenta forte inclinação e exposição; só cabe no roteiro de quem tem experiência, tempo e condições secas.
Via Pântano do Sul: 2,4 quilômetros; de 1h30 a duas horas por trecho; curta e íngreme.
Via Matadeiro: cerca de 5 quilômetros; de 2h30 a três horas por trecho; mais exposta e exigente.
Dificuldade: moderada por Pântano do Sul; moderada a difícil por Matadeiro.
Atenção: sem sinal de celular garantido, sem sombra contínua e sem entrada nas cavernas do costão.
Cavernas da Lagoinha: não entre
A Portaria 021/FLORAM, de fevereiro de 2025, restringiu temporariamente a visitação pública às cavernas do costão por causa da fragilidade dos espeleotemas, da fauna associada e do alto risco de acidentes, até a aprovação do plano de manejo e a regulamentação específica.
O plano de manejo foi aprovado depois, mas, na apuração encerrada em 2 de setembro de 2026, não foi localizado ato posterior que regulamentasse e liberasse essa visitação. Até nova norma formal, mantenha-se fora das cavidades e respeite a sinalização.
SUL DA ILHA • INICIANTES E FAMÍLIAS • UNIDADE MUNICIPAL
3 | Caminho Guarani, na Lagoa do Peri: restinga para observar devagar
Para quem quer começar sem transformar a caminhada em prova de resistência, o Caminho Guarani é uma das escolhas mais coerentes da ilha. O circuito parte da sede do Monumento Natural Municipal da Lagoa do Peri e atravessa principalmente vegetação de restinga, um ambiente que parece baixo e simples à primeira vista, mas abriga um mosaico de plantas adaptadas ao vento, ao sal e ao solo arenoso.

O roteiro usado em atividades de educação ambiental tem cerca de 3,5 quilômetros e pode ser feito em 50 a 90 minutos, conforme o ritmo e as paradas. O terreno é majoritariamente plano e a proximidade da sede traz banheiros, alimentação e apoio. É uma caminhada para trocar velocidade por atenção: folhas aromáticas, bromélias, aves e mudanças sutis entre restinga e floresta contam mais do que um grande mirante final.
Acesso: sede da Lagoa do Peri, Rodovia Francisco Thomaz dos Santos, 3150.
Distância e tempo: cerca de 3,5 quilômetros; de 50 a 90 minutos.
Dificuldade: fácil.
Atenção: a sede informa funcionamento diário das 7h às 19h; confirme as regras no dia.
SUL DA ILHA • MATA E CACHOEIRA • PISO IRREGULAR
4 | Caminho da Gurita: a face mais selvagem da Lagoa do Peri
A mesma unidade de conservação guarda um passeio bem diferente. O Caminho da Gurita segue pela margem e entra na floresta em direção ao interior da bacia. Há cursos d’água, pedras, barro e um trecho rochoso em que muita gente usa as mãos para progredir. É esse ponto — somado à distância de retorno — que tira a rota da categoria “fácil”.

As medições variam conforme o início e o ponto de retorno, mas a referência mais conservadora é de 2,8 a 3,5 quilômetros por trecho, com pelo menos 1h30 só de ida. Após chuva forte, áreas baixas podem alagar e as pedras ficam lisas. Começar tarde é uma má ideia: resgates recentes na região envolveram caminhantes surpreendidos pela escuridão.
A recompensa não justifica atalhos. A bacia do Peri é manancial de abastecimento e uma área culturalmente ocupada; siga o eixo principal, atravesse os riachos apenas se houver segurança e deixe a água tão limpa quanto encontrou.
Acesso: fim da Rua Túlio Oliveira, na Armação; confirme o ramal com a gestão da unidade de conservação.
Distância e tempo: de 2,8 a 3,5 quilômetros por trecho; de três a quatro horas para ida e volta.
Dificuldade: moderada; há pedra, barro e uso eventual das mãos.
Atenção: evite depois de chuva intensa e calcule o retorno com ampla folga de luz.
EXTREMO SUL • HISTÓRIA E MAR • BATE-VOLTA CLÁSSICO
5 | Naufragados: caminhada até o extremo sul da ilha
O Caminho dos Naufragados começa onde termina a estrada, na Caieira da Barra do Sul. Sob a mata, ele cruza um território em que arqueologia, colonização, pesca artesanal e defesa costeira se sobrepõem. A praia aparece no fim como um anfiteatro voltado para a entrada da Baía Sul e para o continente.

O eixo principal tem de 2,3 a 3 quilômetros por trecho e costuma levar de 50 a 70 minutos. É bem definido e, em geral, mais simples do que a fama sugere. A aventura cresce quando se acrescentam o farol e os vestígios da antiga fortificação: com esse circuito, o dia pode chegar a 6,5 quilômetros e de três a quatro horas, incluindo paradas. Há trechos costeiros expostos, pedras escorregadias e subida.
Bares e barcos funcionam de maneira sazonal e dependem do mar. Leve água e lanche mesmo que pretenda almoçar na praia. Quem está começando deve fazer apenas o caminho principal; o circuito histórico combina melhor com pessoas confortáveis em terreno irregular.
Acesso: final da estrada da Caieira da Barra do Sul.
Distância e tempo: de 2,3 a 3 quilômetros por trecho; de 50 a 70 minutos. Com o farol e o forte, aproximadamente 6,5 quilômetros no total.
Dificuldade: fácil a moderada no caminho principal; moderada no circuito costeiro.
Atenção: não dependa de barco ou comércio; pedras e maré alteram o trecho costeiro.
EXTREMO SUL • CURTA E CÊNICA • COMUNIDADE RESIDENTE
6 | Saquinho: uma escadaria comunitária sobre o Atlântico
A partir da Praia da Solidão, no antigo Rio das Pacas, o caminho sobe a encosta e revela o Saco do Caldeirão. Boa parte foi calçada pelos próprios moradores no fim do século passado. Essa origem explica o caráter híbrido: parece uma escadaria, mas continua sendo um acesso de encosta, estreito, exposto e escorregadio quando molhado.

São cerca de 1,3 quilômetro por trecho, geralmente feitos em 45 a 60 minutos. O desnível não é enorme, mas degraus irregulares castigam os joelhos, e alguns pontos têm queda lateral sem proteção. Vá com calçado aderente e sem pressa. Na chegada, lembre que o Saquinho não é cenário desabitado: há casas e uma comunidade que merece silêncio, privacidade e passagem livre.
Acesso: Praia da Solidão, pelo fim da Rua Inério Joaquim da Silva.
Distância e tempo: cerca de 1,3 quilômetro por trecho; de 45 a 60 minutos.
Dificuldade: fácil a moderada; degraus e exposição pesam mais do que a distância.
Atenção: evite o piso molhado, respeite os moradores e não conte com comércio.
LESTE DA ILHA • PÔR DO SOL • POUCA SOMBRA
7 | Gravatá: um atalho curto para uma praia escondida
O antigo Caminho dos Pescadores cruza o morro entre o Retiro da Lagoa e a pequena Praia do Gravatá. A subida inicial é curta e direta; depois, a trilha abre vistas para a Lagoa da Conceição, Praia Mole e Galheta antes de descer ao mar. É uma ótima relação entre esforço e paisagem.

O percurso principal tem de 1,3 a 1,4 quilômetro por trecho e leva de 30 a 55 minutos. Quase não há sombra, não existe água potável e os mirantes naturais não têm guarda-corpo. Ramais informais levam a lajes e bordas expostas: quem não conhece deve permanecer no traçado mais evidente.
O ponto mais delicado costuma ser logístico. O início fica junto à SC-406, numa área em que parar no acostamento pode ser perigoso ou irregular. Prefira transporte público, aplicativo ou estacionamento permitido, sem bloquear entradas e circulação.
Acesso: SC-406, no alto entre o Retiro da Lagoa e a Praia Mole.
Distância e tempo: de 1,3 a 1,4 quilômetro por trecho; de 30 a 55 minutos.
Dificuldade: fácil a moderada, com subida curta e forte.
Atenção: sol, bordas expostas e estacionamento. Planeje os três.
LESTE DA ILHA • TRAVESSIA • NAVEGAÇÃO ATENTA
8 | Boa Vista: da Barra da Lagoa à Galheta pelo alto
A Boa Vista troca a orla cheia da Barra da Lagoa por uma sequência de mirantes sobre o mar aberto. O caminho, tradicionalmente usado por pescadores, sobe o morro e termina na Galheta; de lá, é possível continuar pela areia até a Praia Mole. É uma travessia bonita, mas menos óbvia do que a proximidade urbana faz parecer.
São aproximadamente 2,9 quilômetros e pouco mais de duas horas em ritmo tranquilo. O sol bate em grande parte da rota, não há fonte confiável e os mirantes são naturais, sem proteção. A vegetação pode fechar trechos no verão, enquanto pequenos caminhos laterais confundem a direção. Um resgate em 2025, depois que visitantes deixaram a trilha principal na região do Dólmen da Oração, reforça a regra: não siga a curiosidade por ramais não mapeados.
Baixe o mapa para uso offline e resolva o retorno antes de começar. Para quem ainda não navega bem, um guia local transforma o percurso de adivinhação em leitura de paisagem.
Acesso: Barra da Lagoa, pela Rua Laurindo José de Souza, depois do canal.
Distância e tempo: cerca de 2,9 quilômetros; aproximadamente duas horas somente para a ida.
Dificuldade: moderada.
Atenção: sem água, com sol e bordas expostas; use mapa offline e não improvise desvios.
NORTE DA ILHA • SUBIDA FORTE • PATRIMÔNIO ARQUEOLÓGICO
9 | Morro das Aranhas: Santinho visto de cima
No canto sul do Santinho, a trilha deixa o costão e ganha altura rápido. A recompensa aparece em camadas: dunas, Praia do Moçambique, Ingleses e o oceano se abrem conforme a mata baixa dá lugar a lajes e mirantes. A proximidade das inscrições rupestres acrescenta outra escala de tempo à caminhada.

O percurso até o alto tem cerca de 2,5 quilômetros por trecho, 250 metros de subida acumulada e aproximadamente 1h30 só de ida. O trecho final é pedregoso, íngreme e sem proteção. Não há água confiável. Com chuva, a rocha perde aderência; com vento forte, os mirantes ficam desconfortáveis e potencialmente perigosos.
As inscrições e oficinas líticas não são apoio para mãos, pés ou fotos. Observe sem tocar, não passe sobre os painéis e siga qualquer delimitação da área arqueológica. Patrimônio que atravessou séculos pode ser danificado em segundos.
Acesso: canto sul da Praia do Santinho; siga a sinalização local do costão.
Distância e tempo: cerca de 2,5 quilômetros por trecho; 1h30 somente para a ida.
Dificuldade: moderada a difícil pela inclinação e pelo piso rochoso.
Atenção: vento, pedra molhada, falta de água e proteção do patrimônio arqueológico.
NORTE DA ILHA • CRISTA E MAR • LOGÍSTICA DE TRAVESSIA
10 | Morro do Rapa: travessia entre Brava e Lagoinha do Norte
O Morro do Rapa liga duas praias do norte por cima do costão. O início na Praia Brava é largo e evidente; depois, o caminho afunila, contorna a encosta e chega a pontos altos com visão simultânea de diferentes trechos do litoral. A descida para Lagoinha do Norte fecha uma travessia curta e completa.

Conforme o traçado registrado, são de 3 a 3,8 quilômetros, percorridos em 1h15 a 1h45. Há subida íngreme no começo, solo solto na descida e bifurcações depois do trecho mais aberto. O manejo é desigual: não chega a ser uma rota selvagem, mas também não permite caminhar no piloto automático.
Faça preferencialmente no sentido Praia Brava–Lagoinha e combine o transporte no fim. Voltar pela estrada a pé é uma solução ruim, especialmente no calor. Em dias de vento sul ou chuva, adie.
Acesso: Praia Brava, com saída na Lagoinha do Norte.
Distância e tempo: de 3 a 3,8 quilômetros; de 1h15 a 1h45 somente para a ida.
Dificuldade: moderada.
Atenção: planeje o transporte de retorno e evite vento ou piso molhado.
CENTRO • CURTA • PARQUE MUNICIPAL
11 | Poção: cachoeira urbana com risco de enxurrada
Escondida no Córrego Grande, a trilha do Poção mostra como a Mata Atlântica ainda entra na malha urbana. Em poucos minutos, o ruído da rua cede ao córrego e à mata do Parque Natural Municipal do Maciço da Costeira. É uma saída curta e popular, boa para encaixar em meio dia — desde que o tempo esteja estável.

O caminho tem cerca de 700 metros por trecho e costuma levar de 20 a 30 minutos. Foi revitalizado e é relativamente fácil, mas cruza o curso d’água duas vezes sem ponte. Depois de chuva forte ou prolongada, o nível sobe e a travessia pode se tornar perigosa; água turva e correnteza são sinais para voltar.
Na cachoeira, profundidade e pedras submersas variam. Saltos não fazem parte de uma visita responsável. Fins de semana concentram público, então cedo é melhor tanto para a experiência quanto para reduzir a pressão sobre o lugar.
Acesso: Rua Sebastião Laurentino da Silva, altura do nº 1330, Córrego Grande.
Distância e tempo: cerca de 700 metros por trecho; de 20 a 30 minutos.
Dificuldade: fácil em tempo seco; inadequada com o córrego cheio.
Atenção: há duas passagens de córrego sem ponte; não atravesse com chuva ou correnteza.
CENTRO-NORTE • MATA FECHADA • POUCA INFRAESTRUTURA
12 | Monte Verde–Costa da Lagoa: rota rústica para fazer com guia
A ligação entre o bairro Monte Verde e a Costa da Lagoa é a alternativa bruta ao caminho histórico da margem. Ela sobe o maciço, passa perto de cursos d’água, cruza mata mais fechada e desce até a Vila Verde. A chegada pode ser combinada com barco, mas o percurso em si pede autonomia e leitura de terreno.

A estimativa é de duas a três horas somente para a ida. A subida é forte, existem trilhas secundárias e a sinalização não é uniforme. Guias locais tratam o acompanhamento como necessário — recomendação que este guia endossa. Também não se deve entrar nas piscinas e quedas ligadas ao manancial; além do risco, há restrição associada à captação de água.
É uma boa escolha para quem já conhece os clássicos e quer entender a floresta do centro-norte, desde que a experiência seja organizada, e não improvisada. Confirme o acesso, a condição do traçado e o barco de retorno antes de sair.
Acesso: fim da Rua do Marfim, no Monte Verde, com saída na Vila Verde, na Costa da Lagoa.
Distância e tempo: traçado variável; reserve de duas a três horas somente para a ida.
Dificuldade: difícil pela inclinação, pela mata e pela navegação.
Atenção: faça com guia, não entre nas quedas do manancial e confirme o transporte lacustre.
SUL DA ILHA • TRAVESSIA CULTURAL • GUIA RECOMENDADO
13 | Armação–Peri–Sertão–Ribeirão: a ilha rural em travessia
Entre a Armação e o Ribeirão da Ilha existe uma Florianópolis de antigos caminhos, roças, quintais e comunidades do interior. A travessia que passa pela Lagoa do Peri e pelo Sertão do Peri não entrega um único mirante-cartão-postal; entrega continuidade. Mata, água e paisagem cultural explicam como o sul da ilha foi ocupado e conectado.

Operadores locais registram cerca de 7,5 quilômetros. Para uma experiência completa, com paradas e margem para o terreno, reserve de quatro a cinco horas. O percurso tem acessos que podem variar, sinalização descontínua e trechos próximos a propriedades e áreas de uso tradicional. Não é uma rota para seguir apenas pela linha de um aplicativo.
Contrate um condutor que conheça a comunidade e confirme previamente o traçado permitido. Além de reduzir o risco de se perder, a mediação evita a invasão de quintais e acrescenta o que o mapa não mostra: histórias, usos de plantas, engenhos e mudanças na paisagem.
Acesso: travessia organizada entre Armação/Lagoa do Peri e Ribeirão da Ilha.
Distância e tempo: cerca de 7,5 quilômetros; reserve de quatro a cinco horas com paradas.
Dificuldade: moderada a difícil, mais pela navegação e duração do que pela altitude.
Atenção: faça com guia e confirme autorizações, acessos e logística entre os extremos.
LESTE/NORTE • VISITA GUIADA • PARQUE ESTADUAL
14 | Trilha Ecológica do Rio Vermelho: fauna, educação e acessibilidade
Nem toda boa trilha precisa terminar num cume. No Parque Estadual do Rio Vermelho, o percurso interpretativo apresenta ambientes de restinga e animais silvestres que, por diferentes razões, não puderam retornar à natureza. A visita guiada transforma uma caminhada curta em aula sobre tráfico de fauna, reabilitação e responsabilidade humana.

O trajeto tem aproximadamente 1 quilômetro e dura cerca de 45 minutos, com estrutura adequada para públicos diversos e recursos de acessibilidade. É administrado em parceria no âmbito estadual, não pela prefeitura. Em junho de 2026, a visitação ocorria de terça a domingo, das 9h às 17h, com primeira saída às 9h30 e última às 16h; o ingresso informado era de R$ 15, com meia-entrada de R$ 7,50 e gratuidades específicas.
Horários, preços e formação de grupos mudam. Confirme com o parque antes de atravessar a ilha. Animais domésticos não entram. Para crianças e pessoas que querem uma primeira experiência guiada na natureza, é um dos roteiros mais consistentes de Florianópolis.
Acesso: sede do Parque Estadual do Rio Vermelho, pela Rodovia João Gualberto Soares.
Distância e tempo: cerca de 1 quilômetro; visita guiada de aproximadamente 45 minutos.
Dificuldade: fácil e com recursos de acessibilidade.
Atenção: fechado às segundas-feiras na programação consultada; confirme valores, horários e vagas.
Por que o Morro do Lampião ficou fora da lista
Em decisão divulgada em 3 de agosto de 2026, o Ministério Público de Santa Catarina informou que segue válida a suspensão imediata de visitação pública irregular, comércio, eventos e outros usos exploratórios dentro da unidade, até que um ato formal estabeleça as condições de uso público, fiscalização, sinalização e proteção.
O mirante é popular e aparece em muitos guias antigos, mas popularidade não equivale a autorização. Este artigo não recomenda a visita enquanto não houver reabertura formal. Verifique diretamente com a FLORAM antes de considerar qualquer mudança de status.
Bateu o perrengue? Saiba como evitar problemas — e onde procurar ajuda
Trilha boa é aquela que termina com história para contar, não com resgate. E boa parte dos perrengues pode ser evitada com alguns cuidados simples antes mesmo de colocar o pé no caminho.
Olhe a previsão antes de sair. Chuva forte, vento intenso, ressaca ou alertas da Defesa Civil são bons motivos para mudar os planos. Córregos podem encher rapidamente e costões ficam especialmente perigosos com o mar agitado.
Não dependa do sinal do celular. Baixe o mapa da trilha para uso offline, evite sair do caminho principal e avise alguém sobre o roteiro, quem está com você e o horário previsto de retorno.
Quanto mais cedo, melhor. No inverno, os dias são mais curtos e escurece rápido. No verão, começar cedo ajuda a fugir do calor mais forte, do movimento e da desidratação.
Leve o básico, mesmo em trilhas curtas. Calçado com boa aderência, água, lanche, proteção solar, repelente, um agasalho leve e um pequeno kit de primeiros socorros podem fazer uma diferença enorme quando alguma coisa sai do planejado.
Água cristalina não é sinônimo de água potável. Evite beber diretamente de bicas, córregos e riachos. O melhor é levar sua própria reserva ou utilizar um método adequado de tratamento.
E, se o perrengue realmente apertar, não tente bancar o herói. Em uma emergência, acione o Corpo de Bombeiros pelo 193. Casos médicos também podem ser encaminhados ao SAMU, pelo 192, enquanto alertas relacionados a temporais, deslizamentos e outras ocorrências podem ser comunicados à Defesa Civil, pelo 199. Em áreas sem sinal, a prioridade é retornar com segurança até um ponto onde seja possível pedir ajuda.
Deixe apenas as suas pegadas
Quanto mais gente descobre as trilhas de Florianópolis, maior também é a responsabilidade de cuidar delas. O aumento da visitação movimenta a economia local, aproxima mais pessoas da natureza e pode ajudar na conservação. Mas, quando falta cuidado, o impacto aparece rápido: lixo, erosão, atalhos improvisados e mirantes cada vez mais desgastados.
A boa notícia é que fazer a sua parte não exige grandes sacrifícios. Na maioria das vezes, basta bom senso.
Atalho não é atalho quando deixa uma cicatriz para trás. Siga pelo caminho principal, mesmo que ele seja um pouco mais longo. Cortar curvas acelera a erosão e ajuda a abrir novas marcas na encosta.
Se entrou com você, volta com você. Isso vale para embalagens, restos de comida, papel higiênico e bitucas. E fogo na trilha? Nem pensar.
Olhe, fotografe e deixe no lugar. Não alimente animais e não retire plantas, pedras ou fragmentos arqueológicos. Nas áreas com inscrições rupestres, a regra é ainda mais simples: admire sem tocar.
Lembre que nem toda trilha passa por um cenário vazio. Muitos caminhos cruzam ou passam perto de casas, ranchos, roças e áreas de pesca. Respeite quem vive e trabalha por ali, evite barulho excessivo e não bloqueie acessos.
Vai com cachorro? Confira antes. As regras mudam de acordo com cada unidade de conservação. Na Lagoinha do Leste, por exemplo, animais domésticos não são permitidos.
Na trilha, menos gente pode significar mais experiência. Grupos pequenos fazem menos barulho, causam menos desgaste e tornam o caminho mais agradável para todo mundo. Nos roteiros mais rústicos, contratar um guia local também é uma boa forma de ganhar segurança e ainda movimentar a economia da região.
No fim, a lógica é simples: aproveite tudo o que a trilha tem para oferecer e tente deixar o lugar exatamente como encontrou — ou, se possível, um pouco melhor.

